Você Também Lhes Faziam De Tudo? 2

Você Também Lhes Faziam De Tudo?

Afirma nesse livro, João Miguel, Ator que um dos pilares do que ele chama de A nação a desmemória é o abandono dos derrotados. “A realidade falseada, o descrédito um tanto de esquecimento estratégico. Como se fosse possível sepultar todos os nomes”. Não há dúvida que, como juiz, o que mais me impressionou em cada vítima que conheci não foi tanto o terrível sofrimento que expõe no seu testemunho como o alívio imenso por poder mencionar perante a autoridade competente. Falar sobre o acontecido equivale a fazê-lo real. As expressões exercem certo o que tanto tempo se guardou no coração e pela cabeça, o que nem se sussurrava às escondidas.

O narrador foi tocado de modo exaustiva, todos os marcos dessa longa marcha de frustração e sofrimentos, e observa todos os estilos que ainda estão pendentes de definir. Explica que as chamadas de atenção de organismos internacionais, como a ONU não serviram pra que o governo anterior, conservador e enraizar ainda em essências franquistas, ocupou o cargo de restabelecer a verdade.

E faz votos, como todos nós fazemos, pra que o governo socialista possa comparecer a obtê-lo. “Os aviões estavam niveladas e me agazapé no chão, coberto por um cobertor. De repente, senti um golpe potente nas costas. Fiquei paralisado. Notei que tinha sangue. Quando toda humanidade se levantou, vi que eu tinha caído em cima da cabeça de uma moça.

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  3. 2011: tempo
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Eu tinha 10 anos, e ela era mais pequena. Uma pequena de quatro ou 5 anos.” Memórias de Alexandre Torrealba continuam vivos oito décadas mais tarde. A cena que relata acontece pela estrada de Málaga a Almería, no momento em que dezenas de centenas de pessoas fogem do avanço rebelde. Porque o 7 de fevereiro de 1937 havia arrancado sinistro, com Francisco Franco, Adolf Hitler e Benito Mussolini atacando sem piedade população civil durante um dos maiores éxodos do século xx. A capital de málaga, que até por isso tinha estado em mãos republicanas, acolhia a milhares de refugiados que atestaban as ruas, provenientes de Antequera e de Ronda, recém tiradas.

Se sabia por experiências de Cádiz, Sevilha, Córdoba e Granada que as tropas rebeldes não tinham compaixão com a gente a pé de todas as cidades. E Málaga havia sido um feudo do partido republicano, durante 7 meses depois do golpe de Estado de julho de 36. Em novas cidades haviam tido local fuzilamentos centenas, prisões milhares. Os civis que temem por suas vidas têm que escapulir pela única saída possível, os 175 quilómetros que separam a cidade de Almeria, ainda republicana. Fascistas e nazistas fazem a linha costeira numa arapuca e a fuga numa carnificina.

Será o superior crime de batalha a luta civil espanhola: A Desbandá. Os números nesse massacre da andaluzia, pela fuga de Málaga pra Almeria, não são conclusivos. Variam de acordo com as muitas pesquisas. Em números redondos ultrapassa os 5.000 mortos em um rio humano composto por mais de 200.000 refugiados perseguidos por terra, mar e ar. Milhares de mulheres, idosos, criancinhas, derrotados e atacados, sempre que se limitaram a escapulir, sem exibir briga. A desesperada migração muta em um inédito drama humanitário.

A interminável coluna de mulheres com seus garotos e filhos menores, os idosos, a maioria descalços, são bombardeados desde o mar na artilharia dos navios de cruzeiro rebeldes. Por terra, lhes perseguem as tropas italianas, que os vão ametrallando. Também bombas caem do céu. Este ataque contra a população civil por porção de Franco e seus aliados precede outros bombardeios indiscriminados que são mais famosos, como os de Guernica (Espanha), Barcelona ou Játiva (Valência), entretanto os supera pela tamanho da matança. Em todos esses casos, os ataques à população civilse fizeram com participação alemã e italiana.

“Alejandrito, no momento em que vierem os aviões se tiras a vala e se as tampas com a manta, o que lhe disse—. E isso eu fiz”, afirma, em 2018 aquele fedelho, nesta ocasião Alexandre, noneganerio. Com somente um pano como toda a cobertura. Como uma espécie de escudo que não impossibilita a máxima sentença do terror.

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